Prefácio
O desafio que me foi proposto – escrever um conto sobre o enlace entre dois seres que se amam -, trouxe-me com as mãos baralhadas, nas partes inteiras dos momentos, em lapsos do olhar, enquanto andava para trás e os ponteiros do relógio dos ângulos obtusos nunca se encontravam...
Percorri esta encruzilhada de caminhos e rotas de uma geografia de sentimentos que ainda hoje impelem os seres vivos a entrelaçarem as suas existências e a viverem em comunidade, arremeti-me neste sonho epopeico, vesti a pele de Cadmo. Aquele que procurou a irmã Europa, raptada pelo deus dos deuses e, tal como ele, segui uma vaca errante, símbolo da irmã, para “fundar” uma ideia onde a bicha, esgotada, se deitasse. Ainda me faltava matar o dragão e casar-me com Harmonia.
Não encontrei a tal Europa, tia-avó de Dionísio: deus do vinho, do culto da vinha, do delírio imprudente e orgíaco.
Sobrava pouco para a paixão, para a irracionalidade dos sentimentos, enfim, para o AMOR...
Mas teria servido o amor para estabelecer estas pontes entre cândidos castelos de neve, manteiga e natas (Norte), sobre rios de azeite que correm sobre leitos de amêndoas, figos e açúcar, e o (Sul)?
Procurei analisar a questão à luz da continuidade portuguesa no enquadramento internacional, através do enamoramento/amor consubstanciado em casamentos régios como partes integrantes de estratégias diplomáticas nas relações de Portugal com o resto da Europa, em diferentes momentos, com o objectivo de: assegurar e conservar a sua independência no contexto da Respublica Christiana em harmonia com o equilíbrio internacional de forças «nem o próprio casamento de D. Afonso Henriques terá sido ditado pelo acaso, pelo gosto pessoal ou pelas relações de parentesco... terá o rei preferido o casamento, em 1146, com Mafalda, filha do Conde de Saboia, cuja influência na política europeia seria muito acentuada»; estabelecer relações comerciais, culturais e até militares com a região emergente da Flandres e manter a continuidade da implantação Portuguesa nessa região (primeiramente através do casamento da infanta D. Teresa, filha mais nova de D. Afonso Henriques, com Filipe, conde de Flandres, em 1177 e; numa segunda fase, quando D. Teresa, já viúva e sem filhos, negociou e conseguiu o casamento da herdeira do condado, Joana, filha do imperador Balduíno, com um sobrinho, D. Fernando, filho de D. Sancho I). Esta estratégia política de casamentos no Norte da Europa reforça-se com o casamento da irmã de D. Afonso II, D. Berengária, ou Beregela, com Valdemar II, rei da Dinamarca, em 1214.
Quarteira, 25 de Junho de 2007
Adriano Aires
cONTO i
Fernando, Conde da Flandres, por fim «Ferrand»
Ou o a história de um casamento feliz
Naquele tempo o casamento entre grandes senhores outra coisa não representava senão um acordo de conveniência. Mas, como em tudo, houve excepções. Foi o caso de um tal príncipe Fernando, «delrej D. Sancho tinha ia della tres filhos. S. hua filha ouue nome D. Aldonça e dom fernando e dona sancha», «celebrizado na história da Europa sob a designação de «conde Ferrand».
Segundo reza a história, os adjectivos qualificativos da beleza humana eram poucos para definir a formosura deste príncipe: Lindo de morrer! – ciciavam as jovens princesas de antanho, por entre sorrisos, em galopes perdidos no fogo da puberdade, da inocência e do desejo.
Tinha-se retirado para França, após a morte de seu pai, onde ficara a viver sua tia, condessa viúva da Flandres e caiu no palácio de Filipe Augusto, rei de França, inspirador da guerra entre franceses e ingleses após a subida ao trono inglês de João Sem-Terra, íamos dizendo que Fernando “Sem-Joana” desceu dos céus como um autêntico raio e que teve uma acção fulminante na alma da mais rica e cobiçada herdeira que frequentava a corte: JOANA, condessa-herdeira-da-Flandres-filha-de-Balduíno, imperador de Constantinopla.
Esplendorosa no alto dos seus dezasseis anos, esqueceu os muitos pretendentes que giravam à sua volta e entregou-se a uma paixão desvairada, que só nos acontecem aos dezasseis anos ou dezasseis anos e meio, por aquele português alto, espadaúdo, de olhos meigos-transparentes-castanhos-de-amêndoa-navios-da-alma, e pestanas negras como os cabelos e as barbas.
O namoro foi rápido e cheio de encantos por todos os motivos e mais um. É que a noiva não conseguia dobrar a língua para pronunciar um nome tão complicado e em vez de Fernando, dizia Ferrand... Ferrand...
A boda realizou-se com a bênção do próprio rei. O casal partiu para as suas terras. Durante dois anos aí viveram decerto muito felizes como adiante se verá.
O pior é que, na época, assim como ainda hoje, os amigos de agora facilmente se transformavam em inimigos de amanhã. Por razões que agora não vêm ao caso, Filipe Augusto «manteve este príncipe português como seu prisioneiro durante 12 anos, tendo sido submetido a muitas himulhações».
Que eternidade para a pobre Joana!
A condessa dos olhos de pérola implorou piedade, demonstrou a sua tenacidade fugindo ao lugar comum de princesa-menina-fútil, às súplicas aliou uma elevada soma oferecida ao rei francês, «pediu por intercessão do Papa Honório III». Não sendo possível, acabou por aceitar que lhe anulassem o casamento, pois sentia-se na obrigação de dar um herdeiro ao condado da Flandres.
Já se adivinhava um novo enlace com o duque da Bretanha quando o destino, e o amor tem destas coisas, deu uma reviravolta e Ferrand acabou por ser libertado. A princesa-mulher, viúva no coração e nas mãos e nos passos, abandonou tudo, partiu desvairada, cabeça perdida, a paixão numa mão, o amor e o fogo na outra, como pássaro que luta com o sorriso na asa, o vento desvendado nas janelas, abertas, as mãos entrelaçadas ao pescoço:
- Estou nu para reviver – disse-lhe com o olhar lânguido – tenho a idade das palavras das crianças neste momento, como as primeiras águas de Setembro.
- É o silêncio que nos fala! O silêncio de amar! – e assim, como se tratasse de uma colheita única, pôs-lhe os lábios sobre os lábios, os dele, os da parte externa do fruto, que encerra as sementes e que, áridos, a beijaram também.
O casamento fora dissolvido pelo Papa. Que fazer então?
- Partiste sem ausência, sem descanso, conheço agora a tua paz singular, a enorme inocência do teu silêncio!
- Recomeçar tudo de novo – respondeu-lhe Ferrand, como ela gostava, e conseguia, chamá-lo.
- Ser-se assim belo quando chove, quando há vento e quando neva, ser-se assim misterioso e constante diante de todas as luzes.
No dia 12 de Abril de 1226, os sinos repicaram no espaço de uma memória muda, casaram-se de novo...
As palavras perpassavam as pedras felizes sob os seus pés nus, nem uma lágrima na contemplação da luz, a que feria os olhos outrora. E Joana, quando ele morreu, com a felicidade de poder ir longe, como quando se fazem círculos na água parada para distrair grandes pedregulhos para lá lançados durante as noites em que a lua embebeda o céu, mandou gravar no seu túmulo:
«PORTUGAL TEVE OS ANTEPASSADOS DE FERRAND
A FLANDRES TEVE A SUA ALMA E O SEU CORPO»
e que corpo... e que alma... JOANA!
Adriano Aires
CONTO II
Catarina de Bragança, Rainha de Inglaterra
ou como Nem só os Descendentes Conferem imortalidade
O casamento de Catarina de Bragança com Carlos II de Inglaterra foi um contrato político idêntico a muitos outros. Mas as circunstâncias da época colocaram sobre os ombros da princesa uma dificuldade maior: o embaixador espanhol em Londres, desejando impedir a todo o custo aquela aliança, esforçava-se por casar o rei inglês com uma princesa protestante, tendo sucessivamente sugerido as princesas de Saxe, da Dinamarca, de Orange e de Parma, «oferecendo para isso à Inglaterra mais do que tivesse sido oferecido pelos Portugueses, incluindo a cedência de Dunquerque e da Jamaica». Num último esforço desesperado, renovou as promessas e ameaças junto de Carlos II, no sentido de evitar o casamento com D. Catarina e tentou convencer o Rei de que a noiva era feia, doente e aleijada.
Apesar da fama que a precedeu, apesar de ser atarracada, como a parte exterior e submersa de um navio, morena, de cor trigueira, católica, apesar de não falar uma palavra de inglês, Catarina impôs-se e cativou o marido. Não sem antes ter passado por um doloroso calvário. Vítima de todas as intrigas dos anglicanos, receosos da sua influência e de um regresso ao “papismo”, chegou a ser acusada, perante o Parlamento, de ter participado numa conspiração para assassinar o rei seu marido. No entanto, alguns dos receios tinham algum fundamento. Rabina, feita criança e menina e mulher em costumes livres dos espartilhos da educação inglesa, nas travessuras dos gestos incontidos, na volúpia dos desejos de uma princesa de um reino qualquer, até imaginário: influenciava o cunhado, duque de Iorque, e junto do rei que, aliás, morreu católico.
Passados os fervores da lua-de-mel, sofreu a doença tradicional das rainhas, cujos sintomas são noites de insónia e a alma abrasada em ciúme. Decorreu algum tempo, o seu sentimento de felicidade tornou-se mais agitado e febril, mais ainda com a rude secura da boca e as picadas no coração.
Aquela que um dia, princesa, levava no regaço, no lugar onde se acha o conforto e a tranquilidade, no seio, no interior, a promessa de cidades: Bombaim (que em noites de verão povoa, ainda hoje, os sonhos britânicos, coração de um império) e Tânger (a extensão do sonho primeiro desta ocidental praia, o mais indicado para despontar o desejo), fez-se rainha.
Recusou o divórcio, recusou a anulação do casamento, por entre a neblina que ocultava estranhas intrigas... e ele, concordando no aceno, lendo-lhe nos olhos a força dos braços que levaram naus e caravelas até praias do mundo, que o mundo com a visão, com a arte ou o engenho não conseguia alcançar, recusou-se a legitimar um único dos quinze bastardos... olhos vendados de aventuras, frutos das muitas traições, que ela perdoava, sem se resignar...
No dote de menina, além da empreitada, estabelecida no acto do ajuste daquele amor sem paixão, mas amor/intriga, feito labirinto nos sentimentos e afectos, ia um ramo de alecrim, orvalho do mar – Rosmarinus, lembrando o calor e a secura ardente do mediterrâneo, folhas de salva, fonte de sabedoria e prolongamento da vida, erva-cidreira, bem-amada das abelhas e, certamente, chá preto (de Ceilão, do Sul da China, da Índia)... no dote, no fundo do baú ia uma noz de astúcia, finura e subtileza todas em igual proporção.
Para que as tardes não se tornassem tão enfadonhas, enquanto o mar do ciúme rugia enevoando-lhe o espírito, resolveu erguer uma barreira na corrente libidinosa dos desejos de seu marido e das demais damas que esvoaçavam pelos quartos e corredores dos infinitos palácios, subtil cortina de temeridade para impedir o assalto inimigo: O CHÁ DAS CINCO! Interrompendo assim as tardes de volúpia e depravação do marido leviano.
O CHÁ DAS CINCO! Uma das mais sólidas instituições inglesas.
De facto, nem só os descendentes conferem imortalidade.
CONTO III
Pobre Berengária!
Ou como caem bandeiras do Céu no Reino da Dinamarca
Quando a filha de D. Sancho I chegou à Dinamarca, sofreu as mesmas angústias de todas as princesas que casaram com reis de terras longínquas. Era a língua que não entendia, os sabores que não reconhecia... para ela a estranheza e a solidão vestiu-se também nas cores e na luz, tão diferentes, santo Deus! Pelos citrinos que já não perfumavam o ar, pelo cheiro das oliveiras e das flores... pelo leite dos figos vertidos nos rios ainda doces das serras, pela lenta luz das manhãs a espreguiçar-se, antiga, nos ciprestes, pelas aves que deixavam as sombras em todo o verão, pelo Sol-mosaico parado e altivo... santo Deus! TUDO ERA BRANCO! Caras brancas, casas brancas, árvores brancas, janelas brancas,... cabelos amarelos e olhos azuis que lembravam o outro azul do seu mar, quente e poético, de um transparente azul. O Sol pálido e fugidio como o olhar, como a alma, como eram vãs as palavras e as coroas... o vestido de seda cor-de-rosa-desmaiado-saudade, no peito uma grinalda de jacintos, ao longo de um rio denso como as trevas habitada por anjos durante a noite: a eterna, e tão portuguesa SAUDADE!
Pobre Berengária! Corredores abaixo… corredores acima… no fragor de uma floresta, do fundo dos tempos, da praia que será um dia heróica, lamentava-se: “Menina e moça me arrancaram de casa de meus pais...”
Por entre soluços e lágrimas que eram promessas, recordava as tardes em que o Sol e o Céu e a Terra e as Oliveiras a fitavam de frente, olhos nos olhos, e a fita amarela presa ao vestido era um terraço que flutuava, a magia que o riso adquiria naqueles olhos pretos, cabelos pretos, e agora, sonhos negros, também... a gritaria dos dez irmãos em ancestrais cavalgadas recordando as proezas do avô.
Mas foi precisamente uma história fantástica que a ajudou a acordar do pesadelo. O tempo passara e já ia podendo participar nas conversas. Certo dia percebeu que gabavam as façanhas do seu marido Valdemar II, rei da Dinamarca, e arrebitou a orelha.
Lutas, cruzadas, conquistas? Tudo aquilo lhe era familiar. O retorno às histórias fantásticas dos avôs, que só os avôs e avós sabem contar, a cabeça a ouvir histórias que ainda não tinha viajado enquanto a mãe lhe passava a mão pela cabeça... Começou por sorrir... e enquanto sorria, ouviu que Valdemar II, o seu Valdemar, derrotou os Estónios, na Batalha de Arvel (1219), «no decurso da qual caiu do céu o estandarte nacional, o Daneborg, em resposta às preces dos bispos dinamarqueses – segundo as velhas crónicas do tempo»
Sentiu-se em casa!
Também o seu avô – D. Afonso Henriques – durante a batalha de Ourique contra os infiéis se viu enleado numa bandeira ao pedir a ajuda divina. Ainda hoje esses desígnios se encontram imortalizados na bandeira portuguesa – as cinco chagas de Cristo – segundo alguns.
Para uma neta de D. Afonso Henriques, nada mais natural que intervenção divina: “Este mundo afinal não é tão diferente”, terá pensado, “se também caem bandeiras do céu...”
Berengária morreu poucos anos depois, possivelmente em batalha, ao lado do marido: «Dela ficaram memórias lendárias que lhe atribuem a designação de “Anjo da Noite” – Beengjierd -, além de larga descendência real»
«Dois são os enamorados, o colectivo começa... só com o número três começa o plural.»
Cadmo, segundo a lenda grega, era irmão de Europa, a bela filha de Agénor, rei de Tir que foi raptada e posteriormente transportada ao dorso por Zeus, metamorfoseado em touro branco. Cadmo procurou Europa, e encontrou o mundo, a quem deu fundamentos, civilização e porvir.
PEDRO SOARES MARTINEZ, História Diplomática de Portugal. Lisboa: Verbo, 1986, p. 33.
Valdemar era um rei poderoso que, ao casar com a infanta portuguesa, dominava já boa parte da Prússia, Lubeque e Danzig.
Crónica de Cinco Reis de Portugal, prólogo de A. MAGALHÃES BASTO. Vol. I. Porto: Livraria Civilização, 1945, capítulo 10 – Crónica de D. Sancho I
PEDRO SOARES MARTINEZ, História Diplomática de Portugal. Lisboa: Verbo, 1986, p. 71.
Não consta que a corte portuguesa se tenha interessado pelo príncipe durante o seu longo cativeiro, embora haja alguns relatos, Crónica de D. Afonso III, cap. XXXVI, que afirmam que D. Afonso II contribuiu para que o irmão fosse libertado
VIRGÍNIA RAU cit. por PEDRO SOARES MARTINEZ, História Diplomática de Portugal. Lisboa: Verbo, 1986, p. 153.
O seu nome científico provem de uma expressão latina – Rosmarinus officinalis -, quer dizer: “Orvalho do Mar”.
Admite-se que o casamento da infanta tenha sido tratado na Dinamarca pela sua tia Teresa, ou Matilde, condessa da Flandres. Segundo PEDRO SOARES MARTINEZ, op. Cit., as crónicas dinamarquesas se referem à rainha Berengela como sendo princesa de rara formosura e irmã de Fernando, conde da Flandres, omitindo, assim, o nome do pai.
O avô da Infanta Berengária, filha de D. Sancho I, era, naturalmente, D. Afonso Henriques – primeiro Rei de Portugal
Até a grafia dos inimigos do marido era parecida como os principais adversários do avô e dos portugueses.
PEDRO SOARES MARTINEZ, História Diplomática de Portugal. Lisboa: Verbo, 1986, p. 34.
FRANCESCO ALBERONI, Enamoramento e amor. Lisboa: Bertrand Editora, 1990, p. 9
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